sábado, março 24, 2018

ÍDOLO
“Me chamavam de Odin, Netuno, sei lá, véi, quando eu saía do mar em Copacabana”, disse o cabeludo Miranda ao meu amigo Fúria na primeira passagem da Mundo Livre S/A por Aracaju, em 1995. Todo mundo tem uma boa história com Carlos Eduardo Miranda.
Roqueiro vanguardista, jornalista chinelão, produtor instintivo, empresário inusitado e jurado de programa de TV, o Gordo sempre foi de tudo um pouco. A começar por louco.
Começou em bandas experimentais tipo a Urubu Rei e Atahualpa y us Panquis, no Rio Grande do Sul, início dos anos 80. “Eu queria fazer uma cena”, soprou aos jornalistas Pedro Só e Arnaldo Branco.
“Nessa história encontrei o Carlos Gerbase, que tava fazendo uma banda punk chamada Replicantes, o Edu K... Aí somos o movimento do rock gaúcho, tinha show pra caralho. E o primeiro fruto disso foram os nossos antagonistas, os Engenheiros do Hawaii!”
Risos.
PORTO ALEGRE TCHAU

Recém-formado em jornalismo, fudido e mal pago, decidiu mudar pra São Paulo. “Não vou virar astro pop, não vou trabalhar em jornal, televisão...” Arrumou emprego resenhando filmes pornôs.
Daí pra imprensa cultural foi um passo. Entrou na Abril, escreveu na Set e marcou época na Bizz: emplacou capa, entrevistou o Defalla sobre cicatrizes adquiridas em brigas de bar e levou o Slayer pra almoçar numa churrascaria rodízio. Kerry King ficou impressionado com as “carnes em espadas”.
Começou a produzir coletâneas pra Eldorado e saiu-se com ‘Sanguinho Novo - Arnaldo Baptista Revisitado’ e ‘A Vez do Brasil’. Numa reportagem, sugeriu aos Titãs criar um selo na Warner pra lançar as bandas novas que enchiam a mesa dele na redação com fitas demo. Os caras toparam.
BANGUELA
Miranda produziu e lançou os primeiros discos dos Raimundos, Mundo Livre S/A e mais uma dúzia de bandas: Little Quail & The Mad Birds, Maskavo Roots, Graforréia Xilarmônica, Virgulóides etc.
Até quem não assinou nem foi produzido de certo modo foi descoberto por ele. Skank, Chico Science e Falcão foram algumas das bolas que cantou pras gravadoras. Mamonas Assassinas ele nunca curtiu. “Não tinha música, só piada, não me interessava.”
Banguela Records, Excelente Discos, Trama Virtual. Com seu toque de Midas lançou Cansei de Ser Sexy, produziu Cordel do Fogo Encantado e o ‘Acústico Mtv’ do Rappa, e abriu a música paraense pro Brasil com Dona Onete e Gaby Amarantos.
AGRADEÇA AO SENHOR
“Sucesso é uma conjugação de vários fatores, é tipo videogame, tem aquele lance de cotação de força, agilidade, raciocínio, tu tem que ter um blend legal.”
Nos anos 2000, mais uma reinvenção. Com a chegada dos reality shows musicais, ficou ainda mais famoso como jurado dos programas Ídolos, Astros e Qual É o Seu Talento no SBT.
Continuou gente fina e fiel ao underground. “Quando tive deslocamento de retina, Miranda me ligou várias vezes perguntando se eu precisava de ajuda”, diz Luiz Calanca da Baratos Afins, loja de discos e gravadora que lançou ‘Agradeça ao Senhor’ do Atahualpa.
“Vinha me pegar de taxi, levava pra almoçar e sempre apresentava uma cozinha bacana. Um cara muito querido e super assediado.”
BRODAGEM
Manteve uma coluna na revista General durante alguns anos. Na ‘Brodagem’ escrevia sobre o que dava na telha, de fins de semana na praia à sua coleção de brindes do Kinder Ovo. Nessas criou o seu próprio culto: Igreja Triangular do Resíduo Digital.
“Ele falava sobre a internet em 1994, 1995”, lembra o jornalista Odair Braz Jr. “Dizia que as pessoas iriam deixar seus rastros pela web e que daria pra ver o que gostavam, por onde andavam, suas preferências e coisas assim.”
Visionário, descobridor de talentos e profeta das redes sociais, Miranda morreu nesta quinta. Precisava de um transplante de rim, não teve tempo. Mas aproveitou da melhor forma o tempo que teve.
Deixa esposa e uma filha de 2 anos, Agnes.
EXCELENTE
Bon vivant e bonachão, apreciava bons vinhos, colecionava bonequinhos e principalmente amigos. Todo mundo tem uma história boa com Carlos Eduardo Miranda.
Naquele Mundo Livre em Aracaju entrevistamos o Fred 04 pro Cabrunco. O Gordo, que produziu o clássico ‘Samba Esquema Noise’ e tava viajando com a banda, sentou à nossa mesa, bebeu umas e trocou ideia com a molecada. Daí saiu a frase que o Fúria citou.
No ano seguinte nos reencontramos no Abril Pro Rock. Nosso amigo em comum, Zé Guilherme da Supersoniques, não sabia que a gente se conhecia e tomou a iniciativa:
– Este aqui é Adolfo Sá, zineiro e maconheiro de Sergipe!
Antes que eu pudesse dizer “que é isso Zé”, Miranda mandou:
– Bah velhinho, excelente! Vamo lá fumar um...
MIRANDA NO TRAÇO DE RAFAEL GRAMPÁ
MAGNÉTICOS 90, HQ DE GABRIEL THOMAZ & DANIEL JUCA
COM A FILHA AGNES

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