terça-feira, maio 01, 2018

MIGUELAGEM 
O vacilo do malandro é achar que todo mundo é otário. Quem é que trabalha com cultura em Aracaju e nunca levou um atraso, um calote, um migué?
Transito entre as artes gráficas e o jornalismo independente desde que me entendo por gente, mas é o audiovisual que há 15 anos levanta minha guia e paga minhas contas. Comecei trabalhando numa videolocadora e fazendo filmes caseiros com câmera VHS emprestada; hoje sou editor de imagens, já dirigi cena de longa-metragem, gerenciei uma emissora de televisão, volta e meia sou chamado pra alguma palestra. Mas acho que tenho mais a aprender do que a ensinar.
Em novembro do ano passado aproveitei as férias na TV e voltei a estudar: me matriculei e fui selecionado pro curso de direção avançada oferecido pelo Núcleo de Produção Digital e ministrado por Wagner Mazzega, amigo dos tempos da Marginal Produções e diretor de filmes publicitários.
“A ideia é contribuir pro audiovisual local, pra que no futuro Sergipe tenha mais representatividade e possa disputar festivais em igualdade de condições com qualquer outro estado, além de fomentar o mercado, já que os alunos acabam tendo contato com um profissional que tá na área. Todo mundo sai ganhando”, disse Mazzega.
Foram 4 fins de semana entre teoria e prática, dos quais eu só pude ir ao primeiro e ao último – porque mesmo nas férias eu faço freelas. O trabalho de conclusão seria dividirmo-nos em equipes para produzir curtas de 1 a 2 minutos de duração com temática relacionada ao Centro Cultural e à Praça General no centro, atual sede do NPD.
Do nosso time original, só restaram 3 integrantes na hora do vamos-ver. Eu escrevi o roteiro, Vicente Otávio decupou e conseguiu os atores. No dia da gravina só a atriz apareceu. Meu chapa Dedé, técnico de áudio que nunca atuou, assumiu o papel do outro protagonista e teve que decorar o texto em cima da bucha. Vicente fez as imagens e eu captei o som direto com um microfone de lapela e um celular. Zero de produção, improviso quase total.
Gravamos tudo em duas horas, com luz caindo, e entregamos o material pronto em 3 dias para exibição na aula final. Optei por upar pro Youtube sem recorrer a videografismos nem reeditar nada. Há defeitos evidentes, como a sincronia a la pornochanchada dos anos 70 ou a marca da cerveja aparente. Mas podia ser pior. Podia ser Schin.
“Os filmes eram só um experimento, um exercício”, analisa Wagner. “Considerando a falta de tempo e estrutura, ficou além do que eu imaginava. Era só pros alunos sacarem como é uma dinâmica de set, não precisava nem ter chegado nesse nível. Se vocês tivessem os 3 a 6 meses que se leva pra fazer um curta, imagina o que realizariam.”
MIGUÉ é nossa homenagem a todos os trabalhadores informais, que se viram nos 30 pra ganhar o seu real e ainda têm que lidar com toda sorte de picaretas e oportunistas ávidos por uma chance de enganar alguém em troca de lucro fácil e rápido. Mas tudo que vai tem volta.
Como já dizia Galileu da Galiléia, malandro que é malandro não bobeia. Numa cidade que tem produtor cultural procurado até pela Interpol, num país em que a lei de Gerson vale mais do que a lei de Newton, se malandro soubesse como é bom ser honesto seria honesto só de malandragem. Caramba.
--> AGRADECIMENTOS: ANA CAROLINA WESTRUP, GRAZIELE FERREIRA E NÚCLEO DE PRODUÇÃO DIGITAL ORLANDO VIEIRA

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