sexta-feira, maio 18, 2018

CENSURA DO PARÁ 
“Vai encarar?”, pergunta Gidalti Jr. no autógrafo do livro Castanha do Pará.
Castanha é um menino que vive nas imediações do Mercado Ver-o-Peso depois de ter fugido de casa. A história do garoto com cabeça de urubu foi lançada de forma independente via crowdfunding e tornou-se a primeira HQ a levar o Prêmio Jabuti, troféu mais importante da literatura brasileira, em 2017.
Mês passado, Castanha do Pará voltou a ganhar repercussão nacional com a notícia da censura que sofreu em uma exposição num shopping center de Belém. Um policial militar se incomodou com a ilustração da capa: o pivete antropomórfico pulando uma barraca de feira com um guardinha de cassetete em punho a persegui-lo. O PM ofendido fez barulho na internet, acusou a obra de “apologia ao crime” e a curadoria da mostra cedeu à pressão – cobrindo o desenho com uma bizarra e sinistra cartolina preta.
“Decisão obscurantista”, lamentou o premiado e censurado autor. Gidalti tem 34 anos, é mestre em artes e professor universitário. Sua bem-sucedida e polêmica publicação de estreia contém denúncia social mas também tem lirismo, passagens oníricas e poesia gráfica. Castanha anda descalço, joga bola e cheira cola; passa fome, dorme à mingua e é enxotado de todos os lugares; quase invisível na paisagem colorida da metrópole amazônica, também sonha com chuteiras e sereias.
Há 2 policiais na trama, um deles “o personagem mais humanizado da história”. Gidalti Jr. faz parte duma leva de desenhistas retados que dominam a narrativa e introduziram sotaques regionais nos quadrinhos nacionais, como Shiko (A Boca Quente, Lavagem etc.), Marcelo D’Salete (indicado ao Eisner Awards por Cumbe/ Run For It) e Marcello Quintanilha (cujo álbum Tungstênio foi adaptado pro cinema, o filme entrou em cartaz ontem).
Pais de primeira viagem, eu e ele temos conversado bastante sobre nossas filhas. Após ninar minha nenê de 3 meses, botei pra dentro um açaí e encarei o desafio, devolvendo 20 perguntas ao quadrinista que colocou o norte do Brasil no centro do debate sobre liberdade de expressão. Em tempos de murici, não seremos nós a ficar calados. Eras, mano!...
   
1-     Você nasceu em Minas, se criou no Pará e mora em São Paulo. Como foi crescer em Belém? Quanto tempo viveu lá e por que mudou pro sudeste?
Nasci em Belo Horizonte e fui bem garoto pra Belém, onde vivi minha infância, adolescência e boa parte da minha vida adulta. Lá me alfabetizei, cursei o ensino fundamental, médio e nível superior. Passei boa parte de minha vida nas dependências da Universidade Federal do Pará, seja no colégio NPI ou na própria UFPA, onde cursei artes visuais. Portanto, me considero paraense por conta desse contexto. Sem falar em família, amigos, entre outros. Hoje moro em São Paulo. Desloquei-me para o sudeste para estudar e atuar em um mercado com mais oportunidades. Somente aqui me livrei de muitas distrações que eram presentes em meu cotidiano em Belém. Pude focar mais no desenvolvimento nas minhas habilidades em desenho, pintura e também estar presente em um mercado editorial, publicitário e de arte mais sólido. Esse movimento coincidiu com a necessidade de minha esposa em fazer uma residência médica em São Paulo. Há também um questão relacionada à segurança pois, infelizmente, Belém chegou a níveis insuportáveis de criminalidade e desordem publica.
2-     Fale sobre o conto que o inspirou a fazer Castanha do Pará.
Adolescente Solar é uma coletânea de histórias curtas elaboradas por um antigo professor meu, Luizan Pinheiro. Dentre várias histórias apresentadas no livro, há o conto do menino chamado Casqueta que mora no mercado Ver-o-Peso. Foi esse o conto que tomei como base para desenvolver o meu quadrinho.
3-     Sua história é ambientada nos anos 90, coincide com sua adolescência. Você também jogou bola na rua e coisas do tipo?
Todo o contexto da história se passa na época em que eu fui garoto. Pude trazer um pouco dessa minha vivência para o enredo do quadrinho. Nossa infância era mais solta, brincávamos mais na rua, éramos um pouco mais expostos e os níveis sociais conviviam mais misturados.
4-     Castanha tem apenas uma bermuda e uma camisa do Remo pra vestir. Você torce pelo time e resolveu fazer uma homenagem?
Sim. Eu torço pelo clube do Remo, mas confesso que sou um torcedor ‘nutella’. Não acompanho ou mesmo me empolgo com futebol.  Gosto mais de criar a partir da análise do comportamento alheio em relação ao tema.
5-     É sua primeira história em quadrinhos? Já fez outros trabalhos autorais, tipo zine?
Esse é o meu primeiro trabalho de histórias em quadrinhos que torno público. Sempre produzi quadrinhos de uma forma amadora e expunha aos primos e amigos. Não digo que fiz zine porque toda minha produção antes do Castanha foi apenas para se engavetar, conteúdo que não reproduzi. Era algo mais descompromissado.
6-     Sua HQ foi feita em aquarela. É sua especialidade?
Eu não sei te dizer se aquarela é minha especialidade. Acho que não, porque eu sou muito curioso por outras mídias, linguagens e técnicas de pintura. Mas talvez eu tenha mais intimidade com a aquarela porque é uma mídia que eu trabalho há muito tempo, no entanto especialidade é uma palavra muito forte. Conheço especialistas em aquarela e eu estou um pouco longe dessa turma, por isso eu me vejo com um perfil mais genérico na pintura, e não como um especialista.
7-     Você só conseguiu lançar seu livro graças ao financiamento coletivo. Chegou a apresentar o projeto pra editoras?
Apresentei para várias editoras, porém o projeto era ainda muito imaturo e dificilmente uma editora aposta em projeto de autores que não tenham uma experiência ou um público estabelecido. Isso é normal. O valor alcançado na campanha de financiamento coletivo ficou acima da meta, o que possibilitou a produção de forma independente.
8-     O que mudou desde sua vitória no Jabuti? Surgiram propostas?
Após ganhar o prêmio muita coisa mudou. O volume de vendas, a exposição na mídia e convites para feiras e eventos no meio editorial. E sim, as editoras se abriram para possibilidade de publicar o meu trabalho.
9-     Na sua HQ as crianças são representadas com cabeças de animais: rato, cachorro, porco, macaco... Esse recurso me lembrou Maus, de Art Spiegelman. Rolou uma influência?
Apesar de apreciar muito o trabalho do Spiegelman, a questão da associação aos animais não tem uma influência direta do Maus e sim da tradição gráfica das fábulas. Também posso citar as histórias do Black Sad e do Walt Disney.
10-  O protagonista, por exemplo, tem cabeça de urubu e anda pelo Ver-o-Peso. Há muitos urubus por lá, é um animal característico do mercado?
O protagonista tem cabeça de urubu porque o Ver-o-Peso é um ambiente que tem uma exposição muito grande de alimentos, carnes, frutas. Então o mercado é todo povoado por urubus. Dentro desse contexto, temos a metáfora que relaciona o menino como mais um bicho à procura de restos para sobreviver.
11-  Li em sites e outras entrevistas comparações do seu trabalho com o do Quintanilha. O que acha disso?
Marcelo Quintanilha que é um autor que eu admiro muito e fico honrado com a associação. Isso ocorre devido à minha temática ser bem brasileira, e também ao uso de uma oralidade naturalista. Mas busquei e busco ser influenciado de forma muito profunda por qualquer autor. Tento ao máximo ter voz original e exploro a minha realidade do Norte para tal.
12-  Já há alguma proposta pra adaptar Castanha do Pará pro cinema?
Não, ainda não tenho nada concreto em relação a adaptações.
13-  Como o livro foi recebido em Belém?
De maneira excepcional. Lancei na livraria Fox e tivemos uma noite incrível com um público enorme. Boa parte dos apoiadores no Catarse também era da região Norte. Há uma enorme receptividade para obras que contextualizem o Pará e região, mas é preciso transmitir verdade para que seja bem aceita.
14-  E a censura na exposição, quais os desdobramentos do episódio?
Essas atitudes vêm ganhando cada vez mais força e ocorrendo com mais frequência no Brasil. Infelizmente, um forte movimento da extrema direita vem se achando detentora de todas as moralidades, tentando gerenciar o que pode e o que não pode em várias esferas da sociedade. Belém está muito fragilizada pela ausência do Estado em várias questões, principalmente no que se refere à segurança pública, o que favorece a certos grupos autoritários e oportunistas. Ainda acredito que a maioria das pessoas é contrária a esse tipo de atitude, mantém-se vigilante contra ações arbitrárias e combatendo esse tipo de postura. 
15-  Um policial militar chegou a ameaçar processá-lo. Ele fez isso?
Na internet as pessoas se sentem poderosas. Ainda estou esperando a notificação do processo, mas cão que ladra não morde.
16-  Na sua opinião, o que aconteceu é pontual ou sintomático do momento que o nosso país vive?
Acho que tem relação com o momento que vivemos. Algumas pessoas interpretam o cenário politico atual como o caos absoluto e se sentem à vontade para apresentar posturas radicais, inconstitucionais e antidemocráticas.
17-  Como você vê o cenário até outubro? Acha que haverá eleições? E o que vem depois?
Eu não faço ideia. Espero que possamos caminhar em um território de mais moderação e equilíbrio. Não vejo o caos, e sim um momento de transição que toma tempo. Os radicais querem tudo pra ontem, e não é assim que funciona o jogo democrático.
18-  Após esse incidente, você foi convidado a ir à Colômbia. Como foi essa experiência?
Eu estive na Colômbia como parte do grupo de autores que representam o Brasil na Feira do Livro de Bogotá. Foi uma oportunidade muito especial porque eu pude me aprofundar mais na cultura e no mercado editorial latino-americano. Pude interagir com jovens, compartilhar um pouco do meu trabalho e conhecer um pouco mais da realidade da educação daquele país. Posso dizer que fiquei bem animado com tudo que vi, e me parece que após um período de muito conflito e instabilidade a Colômbia vai caminhando muito bem no que se refere a educação e cultura.
19-  Você já tá trabalhando em novos projetos: uma animação para um canal de TV e o próximo álbum. Pode adiantar alguma coisa?
Sobre isso, o que posso dizer é que eu tenho uma rotina de produção bem regular e pretendo em breve expor novos trabalhos, mas ainda é muito cedo pra tal.
20-  As vendas de Castanha do Pará aumentaram depois do prêmio Jabuti e da polêmica com a PM? E quem quiser comprar, como faz?
Sim, a procura pelo livro aumentou e vem aumentando conforme as pessoas vão tomando conhecimento da censura, do prêmio ou mesma da obra em si. Todo esse conjunto, seja por meio de eventos negativos ou positivos, vem favorecendo bastante a exposição do livro e a procura aumentou bastante em feiras, livrarias e internet. Atualmente, é possível adquirir um exemplar por meio da Amazon.com.br, pode encontrar na Ugra Press, que é uma loja virtual e física de quadrinhos alternativos e brasileiros, e também na Comix Bookshop. Em Belém, na livraria Fox, nas lojas Ná Figueiredo e no quiosque do Boulevard. Temos uma distribuição em livrarias independentes por todo o Brasil. 

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